Com toda a mídia em cima do assunto por causa da Xuxa ter revelado o que revelou, por causa da Marcha das Vadias ainda fresquinha e pelos debates sobre a culpabilização da vítima, resolvi falar aqui um pouco sobre o que aconteceu comigo.
Eu fazia cursinho perto do viaduto principal de Pinda, então passava debaixo dele toda manhã. Em uma manhã em específico, meu pai me deu carona até o meio desse viaduto, me restando apenas atravessar a linha, cumprimentar alguns sem teto e ir para o cursinho.
No meio desse trajeto, um cara com os seus 40 e poucos anos, bonitão, bem arrumado e alto, me abordou. Me empurrou contra a parede e tirou minha blusa. Jogou no chão tudo o que eu tinha no colo e tentou tirar o resto da minha roupa enquanto dizia mil coisas obscenas no meu ouvido.
Por sorte, nessa época eu ainda era a rainha da simpatia, então todos os moradores de rua tinham meu rosto gravado na cabeça. Um deles me reconheceu e segurou o cara. A esposa dele me ajudou com a roupa e as apostilas. Os outros começaram a correr atrás dele, já que o primeiro 'anjo' não conseguiu segurá-lo por muito tempo.
Ainda em choque, fui para a aula. Lá sentei e fiquei por 2 minutos. Um sentimento de culpa, vergonha, nojo, medo e raiva tomava conta de mim. Infelizmente o sentimento de culpa era mais forte, e isso foi me corroendo a manhã toda, o dia todo. A ficha caiu assim que eu vi meu ex namorado (que na época era ficante) entrar na escola. Eu já havia ligado pros meus pais, meu pai já estava a caminho, e a tentativa de abraço do inspetor foi a prova viva do começo de um grande trauma que eu tenho: o toque!
Passou pela minha cabeça por vários meses que a culpa era realmente minha, aliás, calça de moletom sempre me deixou bunduda e a camiseta do São Paulo é praticamente um cartaz escrito "ME COMA COM VIGOR!". Mas aí o tempo foi passando, e a noção de que AQUELE cara em específico, era um babaca, me ajudou a sair da fossa.
O toque ainda é estranho pra mim, calças de moletom, camisas do São Paulo e viadutos, também. Porém, hoje, eu já consigo trabalhar isso e distinguir um bom toque à uma ameaça.
Acho válidas discussões sobre o assunto, e agradeço a qualquer energia extra-terrena por ter sido apenas uma TENTATIVA naquela manhã (que, além de tudo, era dia do aniversário da minha irmã).
Um beijão pra quem leu!