sábado, 5 de dezembro de 2015

CIDADE V

Desses encontros,
onde monólogos quebram o silêncio,
me diminuo como mulher.
Há sempre o homem presente,
que viveu, que experienciou,
e eu, a mulher, que escutou.
Que bela plateia.

Quando passa a bola (da conversa),
surge o desleixo pela fala.
O ouvido parece que embola,
e a boca da mulher (vazia),
mexe sem som,
fala um emaranhado de histórias
sobre homem, mulher,
bebida, trabalho, estudo,
gato, exercício.

Delas, se conclui:
é puta, é louca,
é chata, é burra,
é pobre.

A mulher fala tão pouco em um primeiro encontro que,
enquanto ela sabe de todos os projetos da vida do homem,
ele mal se lembra do nome dela.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CIDADE IV

Chove forte e a telha ultrapassa o limite do som.
Já não há música que abafe ou que emita sinal.
Fico lá fora, com o guarda-chuva, e observo.
Percebo a grandeza de se permitir dividir o momento,
eu e a chuva, a chuva e eu.
Hoje quem venceu foi ela, escandalosa, encorpada,
desceu gritando e espancando o que a impedia de tocar o chão.
Não sei o que ela tem com o chão,
parece não perceber a liberdade de ser livre
pra escorrer gritante pelo mundo.

CIDADE III

Sorriso vale o dia, vale o Sales,
vale o choro, vale a alegria.

Sorriso faz valer a "crise",
desmerecer a hipocrisia,
esquentar gente fria.

Sorrir tira o chão,
tira o bico, tira o atraso.

Sorrir faz estender tapetes,
fidelizar o perdão,
acalentar os corações.

O sorriso faz valer o encontro
entre desconhecidos
randomicamente
dispostos pela rua,
dispostos a ter vida.

CIDADE II

O sol estala e ainda é noite,
na cabeça mais de 24 horas.
Memória recente transbordando,
cansaço alcoolizante.
Trôpega de ideias,
finalmente se aproxima do papel
- digital.

"Aqui reinará alegria,
essa do começo desse dia.
Se vier o REM,
que dure poucas horas,
pra que eu veja dois nasceres
em uma só data"

Dormi por seis horas,
ainda há luz, sol,
pássaro pra ir embora.
Felicidade ainda ativa,
corpo descansado
que necessita comida.
Gás entusiástico,
panela colorida.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

CIDADE I

Vi gente sendo ajudada na madrugada de sábado pra domingo, vi gente ajudar. Vi gente acompanhar um cego por três faixas de pedestres, vi o cego sorrir. Vi gente se desentendendo e estreitando ainda mais os laços, vi gente discutir sem alterar a voz. Vi gente sendo sincera sobre o machismo naturalizado em si, vi gente mudar de postura. Vi um tanto de caixas cheias de palavras duras precisando sair de dentro da minha cabeça, vi três ou quatro irem embora. Vi o tanto de ideia boa que pode surgir do ócio, vi que posso descansar sem me culpar. Vi que posso ser quem eu quiser, vi que sempre fui outra pessoa.

É de esperança que o coração vive!


(Devia ser só amor dentro dele)
(Que as malcriações vire exceção e a gentileza predomine)

sábado, 5 de setembro de 2015

feriado mais tenso da vida
tanta burocracia papelística
que me sobraram 5 reais,
onde faltam 15 pra, se der,
desendividar da biblioteca,
pra, durante a viagem,
ler e ler e ler -
criando mais 20 reais
na pendura -
e fichar.

O ovo? Tem.
Tem arroz, feijão.
Juro que vi um pedaço lindo de bacon -
um do 5º dia útil -
grudado no gelo do freezer.
Isqueiro, gira a válvula,
sem gás.

Não desisto.
Crio discussões sobre a vida,
as chaturas em papel A4,
as crises que eu crio em cima de crises
que eu mesma criei na última crise.

Crase. A CRASEADO,
À senhora
À senhorita,
À dona, pessoa apta a - pelo amor da Deusa - dizer um sim pra mim.
Assinar.

A viagem tá aí, ó.
- oi viagem.
E a tristeza dos últimos dias e a monotonia da espera -
o cotidiano fica mecânico quando se deseja um papel -
me fazem projetar,
fazer previsões,
ensaiar uma conversa sobre o bendito papel no espelho.
Me fazer deixar de ser.

Tô na escuta, comandante.
Esperando louca/mente que
seja positivo,
operante,
amém.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

fui atrás.


não deu.

de novo. não deu.
mais uma vez.
e
não deu.

a paz parece fugir - de mim
parece rir - de mim

eu soluço, ela gargalha.
me desidrato, ela transborda

eu sou nada.
infelicidade sozinha.
abusada, reabusada, tribusada.

asas, pra onde?
precipício raso,
nem pra isso serve.

acho
a paz só chega com a morte.
mas ela foge.