Pra um relacionamento ser abusivo, não precisa haver, necessariamente, um controle direto: "Não saia", "Não fale com aquele cara", "Não", "Não" e "Não".
Meu último relacionamento foi abusivo e, ainda assim, não faltaram declarações de amor, palavras de carinho e desejos de uma boa vida futura. Esse, meus amigos, foi pior que aquele meu segundo relacionamento coroado com chifres e mais chifres. Sabe porque?
Terminamos aos gritos, dei um show de verdades, disse que não queria mais estar junto. Dormimos e, ao acordar, pensei que não rolava terminar por uma briga de bêbado. Já ele, que sentiu a força das palavras de ódio, quis terminar. Nada mais natural.
Passou um tempo e voltamos. Não digo que foi o maior erro porque não existe regra pro gostar. Ainda nos amávamos e por isso a chance de fazer valer não podia passar longe. Brigamos de novo, bêbados de novo. Dessa vez, eu com a razão, perdi o controle e dei um empurrão de raiva. Perdi a razão. Ele, com o ódio estampado, bravejou, gritou, me diminuiu em palavras grosseiras como "arrogante", "inútil" e mais um tanto de coisa triste. Terminamos, e dessa vez eu não queria mais voltar.
Sempre que olhava pra ele ou me lembrava de um momento bom, pensava nas palavras duras e sinceras. Caiu minha ficha que no amor não existe ódio, que uma discussão boba não podia virar uma tormenta se existisse respeito.
Dois meses se passaram. Ele decidiu vir falar comigo. Falou no Natal, me cobrou felicitações. Respondi, e acabei percebendo uma virtude que tenho em mim: a inabilidade de sentir rancor. Nos falamos por mais uns dias, tudo na santa paz. Aquele recomeço de amizade que todo mundo conhece, onde tudo são flores, onde tudo são planos contados, onde tudo é troca e empatia.
Boba. Em uma das trocas de mensagens ele acabou me questionando porque eu parecia tão bem e ele se sentia tão mal. Me confundi, pensei que era amor enrustido, pensei sentir a mesma coisa de outra maneira, mas não. Eu estava realmente bem sem a companhia dele, eu estava realmente lúcida quando não o respondia rapidamente. Me deixei levar na onda do "amor pra sempre".
Voltamos numa onda de internet, de troca de mensagens e gifs engraçadinhos. Aí foram alguns links de projeto, de texto de militância, de texto político, de possíveis teses e dissertações. Dividimos planos e futuros, tendo como aliada a distância (que pra mim nunca funcionou muito bem). Brigamos umas 30x em cinco dias. Nesse ponto ele já não admitia seus erros, já me culpava de forma indireta pela "cobrança" de resposta (ele havia me dito que seria um prazer passar tardes conversando comigo), já me tratava como estorvo.
Conversando com uma grande amiga, dividi algumas dessas conversas e perguntei se eu estava louca ou se ele, de certa maneira, estava me levando pra instabilidade emocional de antes. Só de dividir, mesmo sem uma resposta direta, percebi nas minhas palavras que eu tinha dúvida sobre quem eu era. Cinco dias antes eu não estava assim. Cinco dias antes eu tinha um plano traçado pra esse começo de ano. Cinco dias antes eu estava rindo feito criança catando confete no carnaval!
Eu, mais uma vez boba, segui em frente nessa loucura de voltar por essa telinha. Anteontem, depois de uma madrugada de troca de mensagens cheia de amor, fui dormir bêbada tendo ele como companhia (são). Acordo seis horas depois com uma mensagem enorme, três páginas de word, me dizendo que me ama muito, me ama tanto, mas que é bicho solto, que não podia trair quem ele tanto ama prometendo uma vida a dois no modo antigo (se vendo todo dia). Agora eu problematizo:
Eu não sou bicho solto? Eu também não tinha planos? Eu também não queria mais a forma de se relacionar de antes? Ele queria preencher o vazio dele tirando a minha paz? Ele, bicho solto, de esquerda e politizado, não podia aguentar a saudade e a dor da perda (sem o tom de posse) assim como eu aguentei? Quando ele veio me cutucar aqui, no meu cantinho, não devia ter pensado nesse amor todo e nessa discrepância toda do nosso futuro? Não devia ter ficado na dele?
Me tirou a paz por cinco dias e se eu não escrevesse esse texto, ficaria com essa bola de pelo encasquetada na garganta, viraria um câncer cheio de "amor pra sempre". Foi rude, egoísta, mesquinho e infantil pedir o retorno sem pesar na balança. As frases que ele usou do natal até o dia 10, foram essas: "não quero te pesar, mas...", "não quero te fritar, mas..." fritou, pesou.
Não guardo rancor e isso é mérito meu. Não sinto raiva porque amei de verdade e guardo comigo as várias palavras bonitas. Mas escrevo esse texto pra deixar claro: NÃO NOMEIE SUA INSEGURANÇA COM CARINHO E CUIDADO. Não assuma relacionamentos enquanto houver uma pulga atrás da orelha. Meninas, vocês principalmente, não aceitem estar numa relação onde a palavra amor vem pra justificar mesquinharia.
Se empoderem, se respeitem e exijam respeito!
(deve ter um monte de erro, mas escrevi isso aqui na pressa só pra acabar logo)
sábado, 16 de janeiro de 2016
domingo, 27 de dezembro de 2015
INFORMAÇÃO DEMAIS CEGA
Na dúvida sobre quem eu sou,
Na desconfiança da mudança,
Na insegurança sobre quem ele é,
Na tristeza de estar pior,
Ele me critica.
É de uma forma tão culta,
Tão politicamente cortês,
Mentirosa e mesquinha,
Esmagadoramente pedante,
Que eu acredito.
Mordi a isca,
Passei dois dias pensando
que sou uma merda,
De novo.
Como resposta, o silêncio.
Ele faz de brincadeira,
Se empodera no meu pesar.
Tira de mim declarações mortas,
Infla o peito e boa,
Silencia.
Amanhã, quando eu viajar,
Espero que saia essa coisa péssima,
Essa sensação que só tenho experimentado com ele,
Que ela vá embora.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
DEPRESSÃO
Um Ser denso, cansado, sem vontade de ir pra qualquer lugar, que desistia fácil de todo objetivo proposto, que via na falta de dinheiro um empecilho pra ver o mundo, isso era eu. Pensei inúmeras vezes em desistir da Universidade, em não viajar pra Amazônia, em vender meus equipamentos e voltar pra casa... já escrevi cartas de despedida e planejei mortes rápidas, sem dor.
Estava em um relacionamento normal, e até a paz de estar com alguém me era cansativa. Inúmeras vezes, de forma passional, provoquei discussões, causei um caos na vida dele e um ainda maior na minha. Me distanciei de todo mundo e não entendia porque essa gente ainda se relacionava com outras pessoas, tão normais, tão paradas. Travei meus pensamentos nas experiências ruins, que não foram poucas, e voltei minha vida para a lamentação, pra tristeza de acordar todo dia no mesmo corpo, na mesma cama, com a mesma pessoa.
"Vem, levanta", "Você precisa parar de fumar", "Você precisa fazer exercícios", "Você tem que levantar", "Para de sofrer com isso agora", "Você é muito exagerada", "Você tem que cumprir sua agenda", "Você não é insubstituível", "Você é arrogante", "Você é hipócrita", "Você é mesquinha". Cancerígenas, assim que eu adjetivo essas frases. E elas vinham de todos os lados, inclusive daqueles que dividiam a rotina comigo.
Antes eu era muito animada, ansiosa, engraçadinha. Não sei em qual momento houve a transição de personalidade, não sei quando a depressão chegou, não sei quando a insegurança desceu e fez da minha cabeça morada, só sei que durou oito anos, que ela dorme aqui dentro e tá doidinha pra me consumir de novo. Mas não vai!
Foi um processo muito complicado. Começou com a viagem ao mundo amazônico, uma imersão que vai ficar pra sempre grudada em mim, onde questionei minha vida, avaliei as coisas que não fluíam bem. Terminei o relacionamento com brigas colossais, vivi a Universidade de corpo e alma, doida pra formar e sentir que havia passado mais uma etapa. Passei dias duvidando de mim mesma e dias amando ser quem eu sou. Tive ajuda de grandes amigos, novos e antigos, que me ajudaram só por estarem presentes, conversando sério, escrevendo projetos, dando risada das coisas da vida e falando bobagem. Saí da minha caverna e zona de conforto, entendi que, opa, pra sair daquela cama eu só precisava de estímulo.
Passei a ver minha vida como única e caiu a ficha que ela é uma dádiva de quem está vivo. Tenho a sorte de ter saúde, uma família que acredita em mim, companheiros sinceros que estão sempre presentes e a sede por amorzinho (essa, insaciável).
Se pra acreditar em mim você precisa de uma citação, eu escolho Galeano e o clichê do Mar de Foguinhos, onde vejo minha vida com depressão como o fogo bobo, imperceptível, e minha consciência sã como o fogo que arde a vida com tanta vontade que incendeia até quem está em volta. Culpo as faíscas daquelas pessoas que foram tão boas comigo nesses dois últimos meses, e que viram em mim uma brasinha em potencial... obrigada por se aproximarem.
Passar por isso foi uma prova incrível de que existe jeito. Hoje eu escrevo esse texto pra mim mesma, como forma de reavivar minha esperança se um dia esse cachorro preto resolver voltar.
ps: ninguém é obrigado a ajudar um depressivo, só é preciso cuidado para não piorar a situação. O silêncio, muitas vezes, é nosso maior aliado.
sábado, 19 de dezembro de 2015
FELICIDADE I
A vida passa rápido demais
pra não haver franqueza.
Se apresse em ser feliz,
ficar do ladinho de quem,
na maior hombridade,
te faz sentir amor.
É preciso ser cuidadoso,
então coloque o capacete,
as joelheiras, as cotoveleiras,
as tornozeleiras e se arrisque
num amor
cheio
derisco.
pra não haver franqueza.
Se apresse em ser feliz,
ficar do ladinho de quem,
na maior hombridade,
te faz sentir amor.
É preciso ser cuidadoso,
então coloque o capacete,
as joelheiras, as cotoveleiras,
as tornozeleiras e se arrisque
num amor
cheio
de
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
CIDADE VII
Noite com cara de despedida e eu, chorosa, vendo as gotinhas do nascer do dia caírem sobre tudo.
A madeira, arquiteturalmente projetada pra ser feliz, encaixa o tronco pra ver o céu.
Dali, vejo o topo de um prédio que um pintor disse dar medo,
a esperança, verde de fome, da lanchonete aberta,
e os pássaros, ainda solitários, abrindo espaço para o sol
nas nuvens.
Um dia justo até pra combinação sol e água:
equilibrada e democraticamente,
vieram dois arco íris.
O primeiro a estatelar as 7 cores,
nascia da torre sem sino da igreja azul.
O outro, que cobria a maior parte do céu,
coroava o morro mais alto da serra.
Só as transições causam esse impacto.
De fase, de dia, de clima, de estação, de cidade.
Sinto o cheiro nostálgico desse lugar
em que eu ainda estou.
A madeira, arquiteturalmente projetada pra ser feliz, encaixa o tronco pra ver o céu.
Dali, vejo o topo de um prédio que um pintor disse dar medo,
a esperança, verde de fome, da lanchonete aberta,
e os pássaros, ainda solitários, abrindo espaço para o sol
nas nuvens.
Um dia justo até pra combinação sol e água:
equilibrada e democraticamente,
vieram dois arco íris.
O primeiro a estatelar as 7 cores,
nascia da torre sem sino da igreja azul.
O outro, que cobria a maior parte do céu,
coroava o morro mais alto da serra.
Só as transições causam esse impacto.
De fase, de dia, de clima, de estação, de cidade.
Sinto o cheiro nostálgico desse lugar
em que eu ainda estou.
sábado, 5 de dezembro de 2015
CIDADE V
Desses encontros,
onde monólogos quebram o silêncio,
me diminuo como mulher.
Há sempre o homem presente,
que viveu, que experienciou,
e eu, a mulher, que escutou.
Que bela plateia.
Quando passa a bola (da conversa),
surge o desleixo pela fala.
O ouvido parece que embola,
e a boca da mulher (vazia),
mexe sem som,
fala um emaranhado de histórias
sobre homem, mulher,
bebida, trabalho, estudo,
gato, exercício.
Delas, se conclui:
é puta, é louca,
é chata, é burra,
é pobre.
A mulher fala tão pouco em um primeiro encontro que,
enquanto ela sabe de todos os projetos da vida do homem,
ele mal se lembra do nome dela.
onde monólogos quebram o silêncio,
me diminuo como mulher.
Há sempre o homem presente,
que viveu, que experienciou,
e eu, a mulher, que escutou.
Que bela plateia.
Quando passa a bola (da conversa),
surge o desleixo pela fala.
O ouvido parece que embola,
e a boca da mulher (vazia),
mexe sem som,
fala um emaranhado de histórias
sobre homem, mulher,
bebida, trabalho, estudo,
gato, exercício.
Delas, se conclui:
é puta, é louca,
é chata, é burra,
é pobre.
A mulher fala tão pouco em um primeiro encontro que,
enquanto ela sabe de todos os projetos da vida do homem,
ele mal se lembra do nome dela.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
CIDADE IV
Chove forte e a telha ultrapassa o limite do som.
Já não há música que abafe ou que emita sinal.
Fico lá fora, com o guarda-chuva, e observo.
Percebo a grandeza de se permitir dividir o momento,
eu e a chuva, a chuva e eu.
Hoje quem venceu foi ela, escandalosa, encorpada,
desceu gritando e espancando o que a impedia de tocar o chão.
Não sei o que ela tem com o chão,
parece não perceber a liberdade de ser livre
pra escorrer gritante pelo mundo.
Já não há música que abafe ou que emita sinal.
Fico lá fora, com o guarda-chuva, e observo.
Percebo a grandeza de se permitir dividir o momento,
eu e a chuva, a chuva e eu.
Hoje quem venceu foi ela, escandalosa, encorpada,
desceu gritando e espancando o que a impedia de tocar o chão.
Não sei o que ela tem com o chão,
parece não perceber a liberdade de ser livre
pra escorrer gritante pelo mundo.
Assinar:
Postagens (Atom)